Rede Globo, ceratocone, LIO estenopeica

É tão importante o estudo da história do uso deliberado da ignorância e dos esforços para obter lucro com a sua exploração, quanto se familiarizar com a história do conhecimento. Ellen Gambrill,2012
“Never in previous history has medical quackery been such a booming business as now” —-   “paradox: the concurrent rise in 20th-century America of modern medical science and of pseudo-medical nonsense”   —James Harvey Young – The Medical Messiahs; 1967; 1975; 1992; Princeton University Press

Recentemente a Rede Globo, apresentou reportagem e postou texto e vídeo em seu site G1, sobre suposto tratamento “inovador” para o ceratocone. Trata-se do uso de lente intraocular (LIO) estenopeica para o tratamento do ceratocone.

É um exemplo de mal jornalismo, no qual a rede globo promoveu pseudociência e colocou em risco a população.

Na reportagem, a Rede Globo entrevistou pessoa residente em área rural de Minas Gerais que, emocionada, relatou ter se submetido à referida cirurgia e apresentou suas impressões sobre o tratamento. A Rede Globo deixou de informar o que é ceratocone, o que é possível fazer para evitar o seu aparecimento ou progressão, como evolui a doença na maioria dos portadores da doença, quais os tratamentos existentes e qual o sucesso que é possível se obter com esses tratamentos. A Rede globo optou por fazer divulgação sensacionalista de uma cirurgia que nunca foi avaliada em seres humanos e sobre a qual não existem artigos científicos publicados que permitam analisar taxas de sucesso e complicações.

O tratamento apresentado é experimental e envolve a realização de cirurgia de catarata em pacientes que não apresentam catarata, seguido da implantação de duas lentes intraoculares, uma delas tradicionalmente utilizada na cirurgia da catarata e outra lente intraocular, proposta pelo médico que idealizou a cirurgia, lente preta com pequeno orifício central. Esta lente reduz a quantidade de luz que entra no olho e impede ou dificulta o exame de fundo de olho, o controle do glaucoma e o tratamento de doenças da retina como a retinopatia diabética.

A divulgação de pseudociência promovida por jornalistas, em programas de televisão ou outros meios de divulgação, decorre de ausência de políticas editoriais relacionadas à identificação de pseudociência ou mesmo à falta de treinamento ou despreparo de jornalistas ou diretores editoriais que analisam releases ou informações recebidas de contatos pessoais (Cortinãs-Robira e col, 2014; CRM-SP, 2009). Sampson (1996) destaca que frequentemente a técnica jornalística envolve a busca de um paciente satisfeito ou o autor de alguma proposta qualquer. Esta metodologia jornalística favorece tendências de divulgação de tratamentos novos, não testados, que acabam abandonados devido à sua ineficácia ou às suas complicações. Envolve frequentemente interesses financeiros dos fornecedores da “novidade”,  a exploração da credulidade humana e a busca de soluções milagrosas de problemas, em contraposição aos métodos científicos de avaliação e confirmação dos resultados de tratamentos.

 

Cortinãs-Rovira, S; Alonso-Marcos, F; Pont-Sorribes, C; Escribà-Sales, E. Science journalist’ perceptions and attitudes to pseudoscience in Spain. Public Understanding of Science, 1-16, 2014

CREMESP – Jornalismo na área de saúde: é preciso separar o joio do trigo antes de divulgar assuntos médicos. Revista do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, ed. 46 – Jan/fev/março de 2009

Sampson, W. Antiscience trends in the rise of the “alternative medicine” movement. Ann NY Acad Sci 1996 ; 775: 188-97